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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

At Last

        Estávamos dançando, finalmente. Eu podia sentir o cheiro delicioso de seus cabelos recém lavados com shampoo de erva-doce, de sua pele tão macia e bem cuidada. Podia olhar, bem de pertinho, aqueles olhos tão intrigantes e ao mesmo tempo, tão tímidos. Ouvia a batida de seu coração, que não por coincidência, era exatamente como a minha, como a música que dançávamos naquele salão tão lotado. E mesmo não querendo que soasse tão clichê, o fato é que o salão poderia estar lotado, poderiam haver milhares de garotas modelos e bonitas me desejando, mas eu já havia sido laçado. Sem querer, é claro, mas eu havia sido enfeitiçado. Aquele sorriso, ah... Aquele sorriso maldito! Foram necessários dois, daqueles bem sinceros, que a gente vê até a gengiva e eu já estava completamente apaixonado.

        Mas o principal aqui é que, caro leitor, eu finalmente a tinha em meus braços. Mesmo que por dois ou três minutos... Eu a tinha! Ela me olhava, eu a olhava. Era como voltar a ser criança e esperar ansiosamente que papai noel chegasse com meus presentes. Ela, obviamente, não fazia ideia do efeito que causava em mim. Da dimensão de seu poder sob um pobre rapaz como eu. Nós dançávamos bem colados e eu podia sentir cada parte de seu corpo, suas curvas tão sinuosas, seu jeito simples, encantador, meigo...


      Eu queria beijá-la, mas estava com medo. Isso mesmo. Johnny-traça-todas com medo. Medo de perdê-la, de sofrer por algo que eu mesmo estraguei, de não poder mais sentir algo tão surpreendentemente gostoso. Seria isso o que aquelas meninas com quem fui babaca sentiam comigo? Em dois minutos consegui pensar na ideia de construir uma vida com essa garota e olha, caro leitor, eu considerava isso tudo um jeito exageradamente romântico de ver as coisas. Inclusive acreditava que era tudo drama e que o amor, ah!, essa palhaçada pra mim nunca existiu.


     Quando At last acabou de tocar e ela se retirou, a única coisa que restou foi o seu calor em meus braços. Eu queria mais! Mas ela não. Minha fama de traça-todas me pegou e agora, a única coisa que tenho é Etta James cantando At Last no meu ipod. E saudades, ah!, quantas saudades daquela garota...

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Sendo direta

- Alô?
- Oi, João...
- Bruna? Oi linda!!! Como tá o seu feriado?
Animação em doses cavalares costuma me irritar. Eu estava sendo fria com ele - e isso é completamente óbvio - mas ao invés de perceber, ele prefere bancar o simpático-que-agora-se-preocupa-com-o-meu-feriado. Respondi, sem enrolar muito:
- Hmmm... Normal, sabe como é... Parado...
- Você e essa mania de ser velha! Tem que sair mais, garota!
Ohhhh, senhor simpático de novo. Engraçado esse comentário dele, principalmente porque a única coisa que falta para que eu saia mais de casa é um convite dele. Coisa que eu estou esperando há semanas... Ok, dias. Que seja!, resolvi ser mais agressiva:
- Hahahah, também acho. Inclusive vou ao cinema amanhã.
- Sério? Com quem?
- Ah, com um carinha aí...
- É mesmo? - Pude sentir todo o ânimo que estava na conversa se esvaindo rapidamente. Seria ciúmes? Esse rapaz é capaz de demonstrar algum sentimento???? - Legal.
Sempre odiei ser tão impulsiva. Passo grande parte do meu tempo tentando controlar essa característica tão forte que tenho. Tentando me transformar em alguém que pare para pensar. Mas quem disse que consigo? Quando dei por mim as palavras já tinham sido vomitadas na cara dele:
- Legal mesmo seria se eu fosse com você. Mas você nunca me convida, né? Tava pensando justamente nisso! No quanto eu queria que você estivesse no lugar desse pateta com quem vou ver um filme sem graça!
- Uau, Bruna...
- Uau, nada! Você sabe como eu me sinto, eu sei como você se sente... Eu só não quero ficar (mais) cansada de tanto esperar! Se você não quer...
- Eu nunca disse que não quero...
- E nem que quer! Esse é o problema!
- Eu só...
- Chega. Não tenho mais nada pra falar com você.
- O pateta chegou?
- Talvez.

Desliguei o telefone, com raiva, e fui me arrumar. Pateta ou não, o novo rapaz merecia uma chance. Não era exatamente quem eu queria. Aliás, ele nem mesmo me lembrava o João. Mas merecia uma chance. E eu me forcei a fazer isso. Desci as escadas pensando seriamente se desmarcava ou não, quando dei de cara com um rapaz sentado nos últimos degraus. Diminuí o passo, revirando os olhos, pensando "Ah, não, provavelmente algum amiguinho do meu irmão esqueceu que ele viajou!". Sem olhar para o rosto do ser que estava me atrasando, eu disse:
- Ei, meu irmão viajou. Cai fora!
Foi aí que gelei. Não podia ser.
- João?
- Acho que você me...
- Confundi, é. - eu disse, ainda meio incrédula - O que você tá fazendo aqui?
- Uau! Que jeito meigo de me receber!
- É só que... Eu não... É, eu não esperava te... Encontrar aqui.
- Tudo bem, não precisa se explicar. Eu sei que fui um babaca...
- Não me diga?
- Ei, calma... - fiquei quieta, segurando meu lado impulsivo. - Eu só tô aqui pra recuperar o tempo perdido, sabe como é... Você quer ir ao cinema comigo?
- Hoje?
- Agora!
Filho da puta!, pensei. Tive que dar uns gritos pra ele finalmente tomar uma atitude. Será que ele só tomou porque falei ou porque ele realmente me quer? A dúvida me dilacerava por dentro. Dançava no silêncio que se plantou logo após seu convite. Cobrava-me uma resposta...
- Sinto muito, João, mas não vai dar. Lembra que eu já tinha compromisso hoje?
- Mas não era um cinema com um pateta?
- Ainda é. Mas não posso fazer nada se ele mereceu uma chance de deixar de ser pateta.

Saí andando, sem olhar pra trás, decidida apenas por fora. Por dentro, eu estava em frangalhos. Queria voltar, abraçá-lo e beijá-lo, dizer olhando em seus olhos o quanto eu esperei que ele finalmente tomasse uma atitude. Mas nada que é bom vem facilmente, não é? E a gente tem que lutar. Pois bem, que comece a guerra.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O fim

      E de repente, ela quebrou. Em pedacinhos.Viu-se desmanchando, transformando-se em lágrimas, cinzas, nada. Sentindo tanto, em tão pouco tempo, que processar o que tudo significava era impossível. Chorar não era seu remédio preferido. Mas funcionava... Como funcionava! Um simples ato como esse fazia com que tudo saísse por seus pequeninos olhos azuis. Toda a dor... Escorriam lágrimas de preocupação, de raiva, dúvida, tristeza...  Seu rosto cansado ainda forçava um sorriso ou outro; pedia por seus olhos, seu sorriso fiel, seus braços tão acolhedores. E agora me diga, ou melhor, diga a ela: onde está você?

      Ela se sentia tão solitária. Tão cinza. Como se no meio da multidão não houvesse ninguém. Seus pensamentos iam e viam numa rapidez inacreditável. Parar de pensar era tudo o que ela pedia. Existir dói...

domingo, 23 de setembro de 2012

Dentro de mim

Por um instante, gelei. Meu coração começou a bater mais forte, minhas pernas ameaçaram falhar, meu olhar procurou o seu. Fiquei esperando você vir até mim sorrindo, de braços abertos, como você fazia toda vez que nós nos encontrávamos naquele lugar tão nosso. Não vou negar que tentei colocar outros ali, onde você ficava. Mas aquele pedaço do muro, ao lado do meu, pertence apenas a você. Em questão de segundos, enquanto eu sugava o pobre rapaz que me lembrava tanto você, percebi o quanto eu queria você ali do meu lado. Não era nosso muro, mas ainda assim dava pra conversar por horas a fio, sem nenhuma preocupação a mais. Fechei os olhos, respirei fundo e magicamente, senti seu perfume, ouvi sua voz, sua risada. Eu posso jurar que você estava ali do meu ladinho!, mas você se desfez tão rapidamente... Nem ficou para um café...
Acho que no final das contas isso tudo foi um dos sintomas de saudade. A gente fica meio fora do ar mesmo. Imagina o que não tem, se ilude e sofre. Você nunca apareceria, eu sei. É bem provável que a gente nunca mais se encontre, mas eu gosto de te sentir quando não há ninguém por perto. De te manter vivo aqui dentro de mim.

domingo, 16 de setembro de 2012

Baú de emoções

- Alô?
- Lucas!
- Débora?
- Acho que pelo visto você ainda não esqueceu da minha voz...
- Como você tá?
- Eu tô ótima, tava querendo falar com você...
- Bom, você ligou pro celular, então...
- Quer que eu vá logo direto ao assunto? Claro que sim, né? Até parece que eu não te conheço...
- Então...
- Certo - respirei fundo - Eu quero voltar.
- Mas, Débora...
- Tudo bem, Lucas, eu sei que se passaram uns 2 anos!
- 4 - ele disse, firme, forte e frio.
- Nossa, já se passaram 4 anos? - sorri, sem graça, agradecendo aos deuses divinos por não estar na frente dele agora - Desculpe minha ignorância, mas só agora caí na real... Sinto a tua falta, fui uma burra por ter te deixado escapar assim tão facilmente, por ter me envolvido com outros, ter te visto com outras, enfim... Eu só queria te dizer que eu te...
- Débora...
- Eu sei que você tá com outra, tá legal? Andei investigando. Mas o que sei, acima de tudo, é que eu ainda mexo com você... Não é possível que tudo que vivemos foi embora tão rapidamente!
- Foram 4 anos, Débora... 4 anos tentando ficar com você...
- Você não sente mais nada?
- Não.
- Mentira.
- Tá bom, talvez eu ainda goste um pouco de você, Débora. Mas não adianta mais. Nós poderíamos estar juntos há 4 anos e você não quis. Me deixou de lado, me rejeitou, me ignorou...
- Eu era tão imatura...
- Fico feliz que hoje você tenha consigo ver isso tudo e voltar atrás. Mas aca.. - e eu o interrompi, antes que ele mesmo estragasse tudo em segundos.
- Acabou o que, Lucas? Nós nunca nem mesmo começamos! Quando eu quis, você desistiu!
- Não, Débo..
- Sim, Lucas! Eu tô te ligando pra dizer que se agora você estiver disposto, eu largo tudo. Tudo. Pego minhas coisas e me mudo praí. Vamos viajar esse mundão, eu e você, como sempre sonhamos escondido...
- Eu nunca sonhei escondido!
- Eu quero você, Lucas. Eu preciso de você...
- Não precisa... Eu parei de confiar em você há um bom tempo...
- Mas dessa vez é diferente! Dessa vez é de verdade e eu posso dizer com todas as letras que eu te amo, Lucas, te amo com todo o meu ser. E eu não te amo só porque tô sozinha ou carente, eu te amo porque tô disposta a qualquer coisa pra ficar com você. A qualquer prova de amor. Lucas...
- Não é justo!
- É o nosso final feliz, Lucas...
- Não é, Débora. Nosso final feliz se foi há muito tempo. Caia na real.

Devastada, sentei e chorei. Chorei por minutos que foram maiores do eu, maiores do que meu mais precioso sentimento. Ele é a melhor parte de mim; a mais bonita. Talvez ele até seja a única parte de mim que valia a pena lutar. Mas eu fui leviana, fui mesquinha, fui eu mesma. Chegamos perto, é verdade. Não vou negar que ainda nos vejo sentados no quintal lá de casa, tomando um café, vendo nossos netos correndo pela grama macia e verde de novembro. Sinto seus macios dedos no meu cabelo, seus olhos castanhos intensos me olhando em completo transe apaixonado. E mesmo sabendo que isso nunca vai mais acontecer, sorrio. Sorrio porque sei que, mesmo estando com outros rapazes, é dele que vou me lembrar sempre. Agora dói, mas sei que toda essa dor se converterá num sentimento tão belo, tão puro, tão real... Com ele, aprendi a amar. Aprendi a dar valor ao que nunca tive e nunca terei. Aprendi que libertar também é amar, independente do quão doloroso isso pode soar.



domingo, 9 de setembro de 2012

Dessa vez é de verdade

- Você sempre me compra com esses corações malditos...
- Eu?
- Não me venha com essa carinha linda...
- Carinha?
- Nem se finja de desententida! É legal no começo, mas tá me irritando agora.
- Eu não faria isso com você, baby.
- Apaga essa cigarro?
- Por que?
- Porque você está fedendo, Anita. E cigarro é coisa de..
- Você gosta, eu sei.
- Não.
- Tô vendo seu sorriso.
- Quer saber? Tome esses corações de papel; são ridículos!, e eu não preciso mais de você!
- Você nunca precisou...
- Eu não sou como um cachorro que você pode dar atenção só quando quer, Anita! Eu também tenho sentimentos! A verdade é que eu sou um otário que se importa demais contigo! E você fica por aí se comportando como quer, como se não fosse minha, como se pertencesse à cada imbecil que te come com os olhos!
- Ai, baby, você é exagerado...
- Dá pra descruzar essas pernas?
- Estão te provocando? Pare de revirar os olhos, Carlos. Isso não vai me fazer mudar.
- Eu já tentei de tudo...
- Menos ir embora.
- Então é isso o que você quer?
- Você tá falando igualzinho a uma mulher na tpm.
- Não desconverse! É isso, não é?
- Ai, baby, não me interprete mal.
- Chega! Eu nã..
- ".. não aguento mais!", mimimi. Incrível como o discurso é sempre o mesmo...
- Dessa vez é de verdade.
- Tô ansiosa.
- Ahn?
- Pela parte do beijo, sabe? Em que tudo fica bem, você para de me encher o saco, esquece por alguns segundos que tenho defeitos...
- Só que dessa vez não vai ter essa parte, Anita. Eu tô indo embora, não tem mais jeito. Eu já te dei muitas chances, já pensei que fosse ser o homem da sua vida. Mas agora feche essa boca e me escute: eu não sou. Não faça essa carinha linda de desespero. Eu sei que ela já funcionou muitas vezes, mas hoje não. Não mais. Pode me chamar de babaca, de idiota, de cagão, do que for: tô indo embora; de mala e cuia, de cabeça erguida. Dei meu máximo, mas a babaca aqui é você. Chore à vontade, não tô me sensibilizando. Inclusive, seus olhos ficam bastante esquisitos quando você chora, sabia? Inchados e vermelhos. Sempre tive nervoso de olhar pra eles quando você começava com o drama barato pra que eu ficasse. Finalmente tô me libertando das correntes, do monstro que você é, que suga tanto de mim, que me deixa fraco e me abandona. E tô me sentindo foda pra caralho por isso!
- Carlos...
- Não era "baby"?
- Eu não tô brincando!
- Muito menos eu.





domingo, 2 de setembro de 2012

Oposições

         Sinto falta da tua barba roçando no meu rosto. Do teu sorriso bobo quando me via. Do teu jeito de bravo quando eu te pedia pra pegar água pra mim. Da forma como tu me olhava: sempre tão intenso, tão calmo e tão acolhedor. Eu reclamava o tempo todo, é verdade, mas nós dois sabemos que sempre foi assim. Sempre tão difícil. Sempre tão... Desleixada? Eu me esforçava, vai. Tu adorava cuidar de mim quando eu ficava doente, lembra? A preocupação em seus grandes olhos negros era grande. Eu queria morar neles. Queria sugar você todinho, pra dentro de mim; me inundar em você, me afogar, me perder. Imensidão desgraçada! Me perdi, e agora, tô na merda. Não literalmente, tu sabe. Tenho casa, família, amigos, dinheiro. Mas não tenho tu. Dane-se o meu português desleixado, tá? Não vem implicar. Tô sendo bonita, me entende! Eu sei que no fundo tu tá sorrindo, pensando "Mas você não tem jeito mesmo, né, Eduarda?". E daí se eu não tiver? Tu não pira com a ideia de ser livre? Pegar umas estradas desconhecidas e fugir pra bem longe desse mundão tão sufocante? Tu não precisa ser tão velho comigo. Cadê teu eu verdadeiro? Bota logo essas botas e bora incendiar isso tudo!
       Tá vendo porque a gente não rolou e nem nunca vai rolar? Tu é covarde. Fica aí com teu mimimi tão massante e previsível. "Eu não posso largar tudo por você...", "E o nosso futuro?", "Vamos viver de quê?"... de vida, cara! De mim, de você, desse calor que eu sinto aqui dentro do meu peito quando te vejo concentrado em alguma coisa. Dessa vontade de me fundir a você, de ser mais pra te merecer. É disso que eu quero viver. Odeio a forma como tu revirava os olhos quando eu tava falando sobre esse assunto. Ou corrigia meu português errado quando tava nervoso. Nunca entendi direito o que rolava entre a gente. E acho que não terei mais chances de tentar, né? Dane-se. Tá vendo como eu tô bonitinha? Nem falei palavrão. Tô me controlando pra tu não me chamar de... Como era mesmo? Xula. Eu até tento, mas a verdade é que eu não sou das tuas e tu sabe disso. Até veio de garanhão pra cima de mim, mas não rolou. Gostei do teu jeito sério e intelectual. Meu oposto, sabe como é.
        Mas não bateu. Não vai bater. Não quero ficar dando murro em ponta de faca (falei bonito!) e nem quero que tu perca teu tempo comigo. Só passei aqui pra te falar que eu tô aqui ainda, cara, e que tu sempre foi especial. Ainda é. Foda-se, não sei mais o que falar. Sinto a tua falta serve?
     

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Entre ilusões e desculpas

Querido Fernando,

         Não sei se ainda tenho o direito de chamar-te assim, mas tu sabes que é só carinho. Sempre foi a tradução do que sinto por ti. Não é amor, não é paixão, não é atração. É carinho. E sinto muito que tu só tenhas percebido agora, tanto tempo depois. Depois de tantos sorrisos, promessas e amores clamados aos sete ventos, sinto-me um monstro por cortar-te as esperanças tão repentinamente. Tão maleficamente. Não menti; saibas disso. Enganei-me por meses, achando que ao conhecer-te melhor, as coisas mudariam. Mas não mudaram. Nunca mudarão! Tua essência não se encaixa na minha, compreende? Almas que não conversam. Não chores, meu querido, não chores... Gosto tanto dos teus olhos! Não suporto imaginá-los cheios de lágrimas. Pense em mim como uma aventura! Um amor de verão, destes que nos sugam por inteiro, nos sufocam e nos deixam aos cacos...
       Gostaria de continuar pedindo desculpas. Sei que palavras jamais curarão teu pobre coração. Aliás, nada que eu faça o ajudará. O sofrimento é inteiramente teu. Causado por mim. Chame-me de insensível, mesquinha, frígida e o que mais te fizer bem. Cuspa palavras ríspidas em minha face, levante-se e grite comigo! Diga que nunca o mereci... Tu sabes que é a pura verdade. Eu também sei.
       Sempre gostei de dizer que a vida é dificil. E realmente, ela o é. Tu sabes agora, sentes na pele, no fundo do teu ser. Sinto muitíssimo por tê-lo feito acordar para este medíocre detalhe. Sinto muitíssimo por tudo. Ter sorrido quando te conheci, ter te forçado a ficar, ter te iludido e principalmente, ter me iludido. Não sei como consigo guardar tudo pra mim; é por isso que te escrevo. É por isso que peço, sem mais rodeios, que siga em frente. Encontre alguém que faça teu mundo melhor, que não te faça chorar como fiz, que respire para ver-te a sorrir sem parar... Alguém melhor do que quem o escreve.

Não direi que sempre sua serei, porque ambos sabemos que isto nunca foi saudável.
E nem será agora.

Lisa

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Noite fria e chuvosa de dezembro

- Você gostaria de ajuda?
Olhei pras compras. Olhei para ele. Olhei para os braços dele. Sorri.
- Você costuma vir sempre nesse supermercado?
- Não, é muito cheio.
- E não tem - opa, desculpa - coisa melhor do que estar junto a outras pessoas?
- Tudo bem, foi só um esbarrão. E sim, é bom estar junto, mas de pessoas que conheço...
- Então você é tímida?
- Ah, não.
- Certo, se não é tímida, também não é extrovertida.
- Nossa, que rua cheia. Mas eu prefiro dizer que sei - a senhora quer comprar uma paçoca? Cinco por um real! - me portar.
- Mas carregar compras, não.
- Foi você quem ofereceu ajuda!
- Eu sei, tô só brincando. Não precisa ficar brava.
- Alô? Alô??? Ronaldo, não tô te ouvindo!
- Não estou brava.
- Mas parece.
- Eu sempre pareço o que não sou.
- A promoção é imperdível! Vocês não podem deixar de conferir!!!!
- Você é profunda.
- É só impressão.
- Parece que eu te conheço de outras vidas...
- Eu já disse, Roberta! Não vai dar pra pegar o ônibus agora!
- Você tá indo pra onde?
- Pra onde você for.
- Pra minha casa?
Ele me deu um sorriso sincero. Profundo. Arrepiou-me por inteira!
- Se você me convidar...
- Tem certeza que essas compras não estão pesadas?
- Se ofereci ajuda, é porque sou capaz.
- Certo.
- Que ventania.
- Você gosta de vinho?
- Não bebo.
- Como não, rapaz? Você está na flor da idade!
- Não bebo com qualquer uma, eu quis dizer.
- Ah, então você é seleto.
- E aí, André?
- Opa!
- Você é conhecido por aqui?
- Um pouco.
- Costuma ajudar muitas garotas com as compras?
- Só as bonitas.
- Sábado, na balada, a galera começou a dançar e passou a menina mais linda... 
- Não aguento mais essa música. Você se importa se formos a pé? 
- Sim. Tá um pouco pesado.
- Eu disse. Pode me dar metade, eu te ajudo!
- Não precisa, eu pago o táxi.
- Mas você mal me conhece!
- Táxi? O senhor quer um táxi? Táxi! 
- Sim. Mas estou conhecendo agora.
- Pra onde vocês estão indo?
- Rua itaboraí, número 30.
- Então você mora no bairro Ventanias?
- Sim.
- Gosto de lá.
- Nossa, nossa, assim você me mata! Ai, se eu te pego... 
- De novo?
- Espero que no meio dessas compras esteja nosso vinho.
- Então você aceitou meu convite?
- Ai, ai, se eu te pego! Delícia, delícia...
-
Sim, começou a chover e eu preciso de um lugar pra ficar.
- Ah.
- Tá frio.
- É.
- Ficou chateada?
- Deu R$ 7,30.
- Aqui está, obrigado. Ei, espera! Vou te ajudar a subir com isso!
- Não precisa, não está pesado.
- Já era.
- Pode deixar na mesa da cozinha.
- Casa bonita.
- Obrigada.
- Quer que eu abra o vinho?
- Não.
- E o seu convite?
- Que convite?
- Não se faça de boba.
- Não tô me fazendo de boba.
- Não tem graça, já tô indo.
- As taças tão no armário.


...


- Seu beijo é bom.
- Eu sei.
- Eu também. Desde quando olhei pros seus braços. 




terça-feira, 19 de junho de 2012

Sou Lu também, porra!

- Luuuuu, que saudades!

...

Sempre tive problemas com esse meu apelido. Sim, é um apelido comum, mas garanto que você imaginou que meu nome fosse Luiza, certo? Errado. É Luciana. Ora, mas porque as pessoas não te chamam de Luci? É cafona. Lu é fofo, é bonito, é íntimo, sou eu. Lu me define! Mas ninguém entende isso. Ninguém olha pra mim e pensa "Olha, o apelido dela é Lu, mas com certeza ela deve se chamar Luciana! Ela não tem aquela cara azeda de Luiza, né?". Pelo contrário, acho que todos devem me achar azeda mesmo. Claro que pensei em trocar de nome, mas vocês têm que entender que não é fácil. Quando sugeri a hipótese à mamãe, esta chorou por 30 (trinta!!!!) minutos ininterruptos.
- Eu te carreguei na barriga durante 9 meses e uma semana! - soluços - E tudo o que você faz é olhar pra minha cara, 19 anos depois, e me pedir pra trocar de nome?
- Mas, mamãe, você precisa entender...
- Entender o quê? Que você não gosta do nome que escolhi com tanto amor e carinho especialmente para você?????
É óbvio que desisti. Passei, depois de muita relutância, a aceitar as pessoas simplesmente me chamando de Luiza antes mesmo de perguntarem meu verdadeiro nome. Às vezes eu até fingia me chamar Luiza - era muito mais fácil.
Mas um dia isso tudo mudou.

...

- Luuuuu, que saudades!
- Ai, nem me fala! Não acredito que finalmente conseguimos sair juntas!
- E a noite hoje tá um espetáculo, né? Só falta aquela boa companhia!
- Mas isso é fácil... 

Eu não via Fernanda há alguns anos e quando finalmente nossos horários se encaixaram, nos encontramos. Ela é uma das poucas pessoas que sempre soube, desde o início, que meu nome era Luciana. Nem sequer errou na primeira vez em que nos falamos! Essa sim era especial! Mas voltando ao nosso encontro, tudo estava correndo bem. O clima favorável, as pessoas simpáticas, a música de fundo... Até que...
- Oi gatinha! - escutei uma voz masculina falar ao pé do meu ouvido.

- Oi - virei-me para ver quem era, já que tinha voz tão bonita. Mas minha amiga, bêbada, se enfiou no meio de nós dois e gritou:
- Ei, Lu, vou no banheiro e já volto! APROVEITA O GATINHO!

Sem graça, sorri pra ele. 
- Lu... Você é linda. 
Quem ele tava achando pra ficar íntimo assim tão depressa?
- Obrigada. 
- Adoro esse nome, sabia?
Aí vem merda.

- Qual nome? - sorri
- Luiza - ele disse, sorrindo, achando que triunfava por descobrir meu nome de forma tão inteligente e rápida. Provavelmente ele devia estar se sentindo um 007 quando o quesito era descobrir nomes através de apelidos. 

- Que engraçado, não conheço nenhuma Luiza! Com licença, viu - e me retirei. 
P* da vida, saí pisando duro até a porta do banheiro, onde encontrei minha amiga rindo com outros rapazes. Provavelmente estava falando besteira e se exibindo, mas como não havia mais ninguém com quem ficar, acabei indo pra perto dela.
- Luuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu... - ela disse, com os olhos meio fechados, jogando seus braços por cima de meus ombros. Completamente bêbada.
Desviei meu olhar e nem a respondi.
- Esse Lu seria de Luciana?
Olhei para a boca de onde vinha essa voz. Uma boca maravilhosa, por sinal. Boca não, homem. Meu Deus, eu nunca tinha visto algo tão bem feito em toda a minha vida! Eu precisava parabenizar os pais dele por esse feito!
- Sim! - eu respondi, sorrindo como uma menina que acaba de ganhar doce ou qualquer coisa do tipo.
- Você tem cara de Luciana!
AI MEU DEUS, ele era minha alma gêmea?????
- Você acha? - e lá estava eu, com o ego tooodo inflado. Se a Fernanda não estivesse TÃO bêbada, provavelmente teria feito alguma piada sobre isso.
Conversamos por horas. Saímos juntos depois por vários e vários finais de semana. Ele me entendeu perfeitamente bem quando contei sobre o grande problema com meu apelido e meu nome e mais tarde, descobri o porquê. Ele se chamava Carlos Eduardo e seu apelido, Edu. Conclusão...
Éramos o casal perfeito. Sofríamos o mesmo tipo de bullying, tínhamos pais que se importavam com a escolha do nosso nome e claro, éramos solteiros. Tudo era lindo, mas é claro que não era perfeito.

... Ele era gay.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

À deriva

Ela segurava a piteira com o cigarro ainda aceso de forma fina. Seu olhar, sempre tão superior à tudo que lhe passava, encontrava-se perdido. Ele realmente não viria? Talvez fosse seu jeito arrogante, ela não sabia dizer. Alguma coisa a impedia de ser plena. Seus pensamentos vagavam por entre as mesas que se sentavam naquele café esquisito e vazio de Paris. O único do qual ela gostava.
- A senhora está esperando alguém?
Despertada pelo garçom, simpático - e com belos olhos verdes, ela não soube o que dizer. Apenas molhou a boca com a ponta da língua e sorriu sedutoramente.
- Senhorita, por favor.
O rapaz ficou sem graça.
- Desculpe-me. A senhorita está esperando alguém?
- Creio que sim, - ela respondeu, fitando a porta - mas acredito que ele esteja atrasado.
- Deseja que eu traga alguma coisa?
- Um café me bastaria.
O rapaz saiu, deixando seu perfume forte no ar. Ela o inspirou e expirou várias vezes, arrumando a franja negra em conjunto com tragadas rápidas sistematicamente.
A melhor definição para o café onde ela se encontrava era velho: o papel de parede já estava se rasgando; o chão mais imundo não poderia ser; algumas mesas estavam enferrujadas e as caixas de som - da onde saía uma música agradável e ao mesmo tempo melancólica - não funcionavam tão bem quanto deveriam.
O café chegara. Ela queria tomá-lo, mas seu batom vermelho pedia para que não fosse retirado antes da hora. O garçom a olhava constantemente. Eu sei que poderia tê-lo agora, se eu quisesse. Um estalar de dedos e ele seria meu. Mas ela estava esperando por outro. Outro que não viria, que não surgiria nem ao menos para dar um rápido oi e ir embora. Outro por quem ela chorara e se declarara. Tudo em vão. O tempo passara mais rapidamente do que ela podia controlar e quando se deu conta, duas horas haviam se passado. O atraso já não era mais perdoável.
Seus olhos perdidos agora encontravam alguma direção. Levantando-se com sua saia de cós alto preta e sua blusa branca encardida, ela encarou o garçom enquanto andava na direção dele. Sua piteira agora parecia sem lugar e fora jogada dentro da pequena bolsa preta que a acompanhava.
- O café estava ótimo - ela disse, sorrindo novamente.
- Que bom! - o rapaz disse - Mas me parece que a senhorita ficou à deriva...
Ela não gostava de perder. Não mesmo. Talvez tenha sido essa pequena frase que a motivou a fugir de seus padrões e fazer algo de que se arrepende até hoje.
- Não fiquei... - ela sorriu, sedutoramente - Eu estava era à sua espera.
O rapaz arregalou os olhos, sem entender.
- Minha espera?
Novamente, molhando seus lábios com a saliva já velha, ela olhou ao seu redor. Apenas ela, o garçom e a música baixinha de fundo se encontravam ali. Sorriu mais uma vez.
- Não vê que o tempo todo eu estive esperando uma atitude sua?
O rapaz, do outro lado do balcão, não sabia como respondê-la. O que deu nessa mulher? 
- Senhorita...
Ela debruçou-se sobre o balcão, aproximando-se o suficiente para que ele sentisse o hálito forte de café com menta vindo da boca dela. Ele não se movia. Rapidamente, seus lábios se tocaram. Ela olhou sugestivamente para a porta do banheiro, enquanto mostrava seu melhor sorriso ao pobre rapaz que estava hipnotizado por tudo que acontecia.
- A senhorita precisa de alguma coisa em especial?
Sem responder, ela deu à volta pelo balcão, aproximando-se do rapaz, beijando-o calorosamente.
- Pena que você não pode me dar o que eu preciso, não é mesmo? - mais uma vez sorrindo, ela deu meia volta e saiu porta afora, sem nem ao menos despedir-se do garçom que parado, em choque, atrás do balcão ficava à deriva.
E a maldita ainda saiu sem pagar!, ele pensou, pagando com dinheiro do próprio bolso aquele café com menta que ela tomara. 

domingo, 25 de julho de 2010

Her diamonds falling down

Lágrimas pulavam para fora de seus olhos numa velocidade incrível. Eu me sentia impotente. Ela não conseguia falar, apenas suportava o salgado que passava rapidamente por sua boca delicada e avermelhada. Seus olhos ficavam inchados e vermelhos conforme o tempo passava. Seu sorriso parecia distante. Sua franja molhara-se.  Eu observava cada detalhe de seu rosto, a forma como suas mãos se encontravam largadas nas pernas, o jeito como seus pés se cruzavam embaixo da cadeira.
De repente, seu olhar encontrou o meu. Eu ainda não sabia exatamente o motivo de tanto choro, e ainda não sabia como agir. Eu sou uma merda às vezes. Ok, às vezes não, sempre. A culpa não era minha, disso eu tinha certeza, ou achava que tinha. Desviei o olhar, me sentindo covarde o suficiente pelo mês inteiro. Vê-la chorando era como um tiro no meu peito. Ela ficaria bem, mas não hoje. Amanhã, talvez. Eu queria abraçá-la, tocá-la, senti-la. Queria estar lá por ela. Mas a única coisa que eu conseguia fazer era olhá-la nesse estado deprimente.
Respirei fundo. Ela fungou. O silêncio jamais me incomodou da forma que a incomoda. Parecia que havíamos trocado de posição: eu desejava desesperadamente uma palavra, um sorriso, qualquer coisa!, e não tinha nada... Absolutamente nenhuma reação dela.
- Na posição de seu melhor amigo devo dizer alguma coisa?
Ela me olhou novamente.
- Não sei. Eu não aguento mais, Dougie...
- Ei, - eu disse, tentando ser o mais simpático possível - eu to aqui, lembra?
Ela não respondeu. Seus olhos estavam completamente cheios d'agua. Era até difícil ver o cinza que eu tanto gostava de encontrar em volta daquela menina dos olhos tão conhecida por mim. Sua mão agora encontrava-se caída ao lado do braço da cadeira. Hesitando um pouco, e ao mesmo tempo sendo completamente impulsivo, toquei em suas mãos geladas - e devidamente molhadas.
Ela me olhou novamente. Sorriu com dificuldade e se aproximou. Um abraço? Aproximei-me também. Seu cheiro me envolveu de tal forma que não pensei duas vezes, e não me arrependo jamais do que fiz: encostei meus lábios nos dela, um pequeno e simples beijo, que mudou tudo entre nós.

domingo, 9 de maio de 2010

Everything

O efeito que as luzes do palco provocavam nele era só um pedaço de tudo o que ele era naquele momento. A forma como sentia a música - e se conectava com ela - era única. Suas mãos delizavam pela guitarra, como se fossem feitos um para o outro. Seus olhos não tinham um ponto fixo: ora encontravam os meus, orgulhosos; ora se perdiam pelo salão abafado. Gotículas de suor espalhavam-se por sua pele branca, e às vezes, durante uma careta e outra, seu sorriso fazia questão de aparecer e me arrebatar.

" It's you, it's you
you make me sing
you're every line, you're every word
you're everything... " 

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Quem Vai Ficar com Helena? (Continuação)

Para ler a primeira parte, CLIQUE AQUI.

Atenção: Esse texto é escrito sobre a visão de dois personagens que são identificados entre parênteses, como se fosse um título diferente.


(Ele)

Após ouvir aquela pequena - e irritante - informação, senti todo o sangue subindo pra cabeça. Idiota, estúpido, some daqui que ela já é minha!, pensei. Respirei fundo e olhei para Helena. Seu olhar estava confuso, parece que previa tudo que aconteceria em instantes naquele pequeno quarto branco apertado. 
- Ei meninos, - ela disse, forçando um sorriso - vocês não precisam brigar, certo? Eu tô ótima...
- Graças à mim! - o idiota respondeu, me desafiando com os olhos. 
Não consegui respondê-lo. Não consegui ter reação nenhuma, aliás. Me sentia um completo idiota, olhando o casal perfeito, cada segundo passado me fazendo sentir um aperto maior no coração. Perdê-la seria o fim. O fim de muitos planos traçados por mim mesmo, sem que ela sequer soubesse. Planos de nos casarmos, de sermos felizes o resto de nossas vidas, de termos filhos, de sermos só nossos. Planos que eu já deveria ter exposto. Mas eu sempre banquei o machão, o cara que não sente nada por ninguém, o grosso, o mal educado, o estúpido de verdade. Nunca me importei muito em mostrar meu verdadeiro eu pra ela, mas alguma coisa me dizia que ela o conhecia e que era só por causa desse pequeno detalhe que ainda estava comigo. Ela era incrível. E eu estava agora, de mãos atadas, vendo o amor da minha vida trocando sorrisos com um completo estranho. Lágrimas começavam a querer saltar dos meus olhos pequenos, mas eu não deixaria com que isso acontecesse. 
- Hm, Helena? - tentei falar, disfarçando na voz toda a dor que queria pular pra fora. 
Ela me olhou. Me olhou como na primeira vez em que nos vimos: seus olhos serenos e negros, profundos, intensamente enigmáticos e sorridentes. Olhos pelos quais perdi minha noção de caminho. Olhos que decidi querer ver a vida toda.
- Você não se importa se eu for lá embaixo, né? Eu deixei o carro parado de qualquer jeito e vou acabar levando uma multa... - Era mentira. Eu só queria descer para não chorar ali na frente dos dois. 
- É claro que não, - ela respondeu - mas volte, ok?
Recolhi minha insignificancia e saí pelo corredor branco. Lá embaixo a noite estava gelada, tinha gosto de solidão. Algumas gotas ainda insistiam em cair do céu e eu não me importava em sentir o gelado batendo em minha pele. 

(Ela)

Paulista falava sem parar, eu não o suportava mais. Em tudo ele se achava o melhor, todo o tempo falando de si mesmo, do que já conseguira na vida, do que queria e do que faria comigo. Fazia planos e tentava me convencer de que Andrew não era o melhor pra mim. Ele poderia ser egoísta e tudo mais, mas eu o amava. Completamente. 
- Então, o médico disse que você já vai ter alta! Mas vai precisar ficar de repouso em casa... Como somos vizinhos, pensei em passar algum tempo com você! O que você acha? - Paulista propôs. 
- Seria agradável sim, mas aposto que o Andrew poderá ficar comigo... 
- O Andrew nem liga pra você, ele foi até arrumar o carro lá embaixo! 
- Isso não vem ao caso. Eu preciso conversar com ele.
- Finalmente uma atitude correta, Helena! Tá na hora de dar um fora naquele imbecil e notar quem tá do seu lado, entende?
- Por que você não vai chama-lo?
- É pra já! 
Sentindo-se completamente útil, Paulista desceu atrás de Andrew. 
O barulho do relógio me mantinha acordada. Uma espécie de retrospectiva passou pela minha cabeça enquanto aquela maldita porta não se abria. Desde quando nos conhecemos até ontem, hoje, tudo. Cada tic tac do relógio me fazia notar o quanto eu gostava dele, o quanto - apesar e acima de qualquer coisa - eu ainda o queria por perto! 
A porta se abriu, me assustando. Um Andrew de olhos inchados me olhou, e vagarosamente, foi entrando pelo quarto. Sentou-se na beira da cama, enxugou os olhos enquanto fungava e me perguntou o que eu tanto queria. Não tive palavras. Não conseguia pensar em nada pra dizer, só o olhava. 
- Você vai terminar comigo, não é? - ele disse, cabisbaixo - Só me deixa dizer uma coisa, certo? É rápido, eu prometo... E não vai mudar sua decisão, eu acho. - eu assenti com a cabeça - Bom, - ele respirou fundo - eu começo me desculpando. Desculpe-me por ser um grosso às vezes, por beber demais e não te dar a devida atenção que você merece... Sei que tenho errado demais, cheguei a notar, mas eu não sabia como reparar isso! As coisas foram saindo do meu controle, como sempre, e quando tudo ficou completamente louco, eu notei que poderia te perder. Foi como se meu mundo tivesse desmoronado. Foi aí que o tal Paulista me ligou contando tudo... Eu entrei em pânico quando entrei aqui e encontrei vocês. Uma espécie de ciúmes, e até mesmo inveja, me tomou por completo. Senti um aperto no peito, lágrimas surgindo e o machão que existie em mim estava entrando em colapso. Tudo por sua causa, Helena. - ele enxugou novamente os olhos, as palavras pareciam mais difíceis de sair agora - Eu não sei o que vai ser de mim sem você, mas é notável que nós já demos o que tínhamos que dar. Eu estraguei tudo, como já se era de esperar... E agora eu tenho que arcar com as consequencias, né? Eu só quero vê-la feliz, farei o possível pra manter esse sorriso no seu rosto. Perto, longe, como você me quiser a partir de agora...
Silêncio. Sua mão suada e ossuda tocou a minha. Eu o amava com toda a força que podia ter e agora esse sentimento ficara mais forte. Depois de tudo, a única coisa que fiz foi beijá-lo, abraça-lo e dizer, com todas as letras, que nada estava perdido.

Fim

quinta-feira, 18 de março de 2010

Quem Vai Ficar com Helena?

Atenção: Esse texto é escrito sobre a visão de dois personagens que são identificados entre parênteses, como se fosse um título diferente. 


(Ela)

A locadora velha que se encontrava  na minha rua estava aberta. A chuva estava muito forte, meu guarda-chuva quebrara-se e eu não hesitei quando vi a porta entreaberta: entrei. 
O cheiro de mofo misturado com a poeira e a umidade, me deixaram extremamente enjoada. Respirei fundo e tampei meu nariz com os dedos. Tentei respirar pela boca, mas o ar estava denso e a dificuldade para o fazer foi bastante. 
Caminhei por entre as prateleiras e a dor voltou. Eu estava tremendo - de frio e de febre. Mais cedo, eu estava no bar com meu namorado e alguns amigos dele, quando meu mal-estar voltou. Uma leve dor de cabeça, tontura e dor nas juntas. 
- Hm, amor... Vou para casa...
- Ora, por que? - ele perguntou, sem entender - Hoje não era seu dia de folga?
O calor lá fora era escaldante, mas dentro daquele minúsculo bar - que deveria estar mais quente ainda - eu tremia de frio. 
- É, mas eu não estou me sentindo muito bem...
- O que é que você tem agora? 
Andrew ficava extremamente egoísta quando bebia. Quando contei o que tinha, ele me fez uma cara de desdem e me entregou as chaves de casa. "Vire-se", foi o que entendi. 
No caminho de volta, fui pega pela tempestade e meus sintomas só pioraram: eu estava prestes a desmaiar e tudo ficava escuro à medida que eu me aproximava da locadora. Entrando lá, comecei a tremer mais do que deveria e depois, não me lembro de muita coisa: um tombo no qual bati a cabeça, mãos fortes me segurando e um sorriso - lindo - conhecido. 

(Ele)

Telefone maldito, pensei. Eu não aguentava mais senti-lo vibrar no meu bolso: quem quer que fosse o persistente, seria atendido agora. Olhei o visor e dei de cara com o nome da pessoa que sabia onde eu estava e o quanto eu odiava ser interrompido:
- Porra, Helena! Que diabos você quer comigo agora?
Escutei um pigarro alto do outro lado da linha. Aquilo não poderia vir da minha namorada. Não mesmo.
- Helena?
- Não é a Helena, me desculpe... - uma voz masculina respondeu, totalmente sem graça - É que você é o primeiro número da lista de "ajuda" do celular dela. 
Lista de ajuda?, pensei comigo, Que merda é essa?
- Ahn, fala logo que eu to ocupado... Se for pra pedir dinheiro...
- Não é sobre dinheiro! - o cara respondeu, agora tomando um tom agressivo na voz - Sua...
- Namorada. - completei.
- Certo. - ele parecia tentar entender se o que eu estava falando fazia algum sentido - Sua namorada sofreu um acidente. Passou muito mal e eu a trouxe para o hospital mais próximo...
Nessa hora, esqueci-me de todo o resto. Era como se meu mundo estivesse desmoronando. Não respondi ao cara que ainda falava do outro lado da linha, mas o ouvi pronunciar algo:
- 31 de setembro.
Era o nome do hospital.  

(Ela)

Acordei com a visão ligeiramente embaçada. A roupa que me vestiram me incomodava e quando fiz menção de tirá-la, seguraram minha mão. Deparei-me com um vulto: seus cabelos negros caíam sobre os olhos e ao abrir seu sorriso, o reconheci - era o sorriso do qual me lembrava. Conforme minha visão voltava ao normal, sua feições foram ficando mais conhecidas. Era o meu vizinho, conhecido como Paulista, que me socorrera. 
- Como você está? - sua voz passou pelos meus ouvidos como uma melodia, que me fez sorrir instantaneamente.
- Bem - respondi, rouca. 
- Finalmente acordada! - ele parecia feliz - Agora posso contemplar esse belo olhar... Tenho que dizer que suas pálpebras estavam monótonas... 
Sorri e olhei o lugar onde estava. Era um quarto de hospital! O pânico pareceu me tomar por completo e ao notá-lo, Paulista foi logo se explicando.
- Ei, calma, está tudo bem! Eu te encontrei na locadora... Você tinha caído, pelo que me parece, e no tombo, bateu a cabeça e desmaiou. Acho que pela fratura aí da sua perna, uma prateleira daquelas velhas deve ter caído sobre você...
- Mas não foi nada demais, certo? - uma terceira voz soou do outro lado do quarto, perto da porta. Não a reconheci de primeira e num rápido movimento, olhei quem era.
- Andrew! - exclamei. 
- Amor! - ele correu ao meu encontro e segurou minha mão. 
- E agora volta o cão arrependido... - Paulista disse, suspirando de tristeza ao mesmo tempo em que revirava os olhos, num sinal de desdem.
- Como você está, Helena? - Andrew afagou meu rosto, aturdido. 
- Agora eu estou ótima! 
- E sem andar, por enquanto... - Paulista interveio na conversa - Como eu estava dizendo, você quebrou a perna. Repouso absoluto por um mês.
- E quem é você pra saber disso tudo? - Andrew o olhou com reprovação.
Paulista segurou minha mão e sorriu, um sinal explícito de um início de guerra entre os dois. 
- O cara quem ficou do lado dela o tempo todo.

Para ler a continuação, CLIQUE AQUI

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Harry Potter e o Carnaval

Eu estava de saco cheio. Queria ir pra casa e dormir até meus olhos incharem e minha cara ficar amassada. Como assim eu tinha que ficar aqui, ainda por cima olhando meu ex namorado se divertindo com a nova namoradinha lindinha dele? Eu odiava carnaval desde que me entendia por gente. Mas não custava nada fazer meus amigos felizes e vir a essa bosta de matinê em pleno sábado à noite.
Talvez eu fosse a única pessoa sentada nessa porra de lugar. O salão estava cheio de pessoas fantasiadas, bêbadas, pulando e se agarrando. O lugar cheirava à suor. Eu me sentia mal. Eu observava calmamente tudo que se passava ali, absorvendo cada parte sem noção que provavelmente eu guardaria por toda a minha vida. Esse tipo de situação não é a minha cara, sou clichê o suficiente pra odiar carnaval.
22:40. Eu estava aqui só há meia hora. Quando é que meus amigos decidiriam que isso aqui já tinha passado do ponto? Respirei fundo, tirei meu cabelo grudado do pescoço, por causa do calor. Suspirei e fixei meu olhar num menino vestido de Harry Potter. O que faz uma pessoa se vestir assim? Talvez eu fosse a única pessoa que - além de sentada, como já disse - não estava fantasiada. Eu estava de calça jeans - sim, nesse calor - e blusa. Continuei olhando pra ele. Ele percebeu e veio na minha direção. Ai meu deus, ele não achou que eu estava interessada nele, achou?
- Oi bonitinha! - ele sentou ao meu lado. Não respondi. - Oi? Alguém aí? - Ele deu um soquinho na minha cabeça, como se eu fosse uma porta e ele quisesse saber quem estava lá dentro. Que tipo de pessoa faz isso com um estranho? Respirei fundo e sorri. Aquilo o bastaria.
- Qual o seu nome?
É, ele não desistiria tão fácil. Meu deus, o que eu fiz pra merecer isso?
- Roberta.
- QUE MANEIRO! - ele gritou, empolgado demais. - EU ME CHAMO ROBERTO.
Sorri de novo, tocando delicadamente meus ouvidos. Talvez assim ele percebesse o quanto ele estava sendo estúpido. Além de me dar um soco e gritar no meu ouvido, o que mais ele poderia fazer?
- VOCÊ VEM SEMPRE AQUI?
Ok. Agora eu me sentia no fundo do poço.
- Não.
Ele ficou sério. Encarou-me por alguns segundos, examinou-me de cima à baixo - como se eu fosse uma peça de carne à venda - e disse, com dificuldade, já que estava completamente fora de si:
- Você não tá fantasiada.
BINGO! Ele acabara de descobrir o mundo. Não respondi.
- Você é bonita. Podia ter aparecido de Gina Wesley.
Agora ele queria que eu fosse o par romântico dele? Louco, tarado, psicopata. Precisava sair dali. Mas pra onde eu iria? O salão estava lotado, e se eu me sentasse novamente, ele me seguiria.
- Olha aqui, meu filho. Primeiro, você tá bêbado. Qualquer pessoa bêbada perde a moral comigo. Segundo, você tá num baile de carnaval e eu odeio carnaval. Terceiro, eu estou realmente muito irritada. Quarto, eu não tô afim de flertar, muito menos afim de você. Quinto e último, a cada segundo que se passa, meus poros pedem pra ficar longe de você.
- Uau, - ele disse, em meio a um soluço - uma gatinha brava.
Oh shit. Aquela noite seria longa demais.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Trancas

- Aprendi a me virar sozinha e se eu tô te dando linha, é pra depois te abandonar! - ele bufou quando eu terminei de falar, levando às mãos no rosto.
- Por que você sempre tem que citar músicas nas nossas discussões?
Não respondi. Ele não merecia escutar minha voz agora.
- E agora vai ficar sem me responder? É isso que você quer, Adriana? Vai deixar tudo como tá?
Respirei fundo e comecei a juntar minhas coisas. Ele foi atrás de mim falando sem parar. Quando ele ia calar aquela porra de boca? Ele realmente acha que me tem nas mãos, na hora que quer. Já ia caindo na dele até notar que as coisas estavam fugindo do meu controle. Até parece que ele não ME conhece.
- ... eu me desculpo, tá bom? É isso que você quer ouvir?
- Não - fui fria - Não quero ouvir mais nada de você.
- Então você quer que eu desista? Que eu deixe você passar por essa porta e nunca mais voltar?
- Que bom que você chegou onde eu queria.
Odeio esse jeito romântico dele. Aliás, odeio praticamente tudo nele. A forma como seu cabelo loiro fica enrolado pra trás, deixando seus olhos escuros à vista. A forma como ele sorri quando se sente culpado, a forma como ele fica quando está excitado, a forma dele segurar o controle da tv e de se sentir extremamente confortável na frente dos meus pais.
- Não se faça de difícil... - ele se aproximava enquanto falava, mas eu estava preocupada demais em juntar todas as minhas coisas e dar o fora dali. Mais um minuto e eu o mataria - Você sabe o que eu sinto por você...
- Não, eu não sei! Eu não quero saber! - eu disse, pegando meu casaco e indo em direção à porta - Aliás, - eu disse, me virando - eu não quero mais saber de você!
Merda de porta. Justo na hora em que abri-la seria uma ótima ideia, não consegui. Tentei mais algumas milhares de vezes e quando notei, estava sacodindo a maçaneta.
- Quando você vai arrumar essa porra de porta? - eu disse, quando o senti bem atrás de mim.
- Quando você deixar de ser tão teimosa e mimada... Talvez. - Ele me abraçou.
Como havia uma enorme porta na minha frente, ainda trancada, não pude me soltar daquele abraço. Respirei fundo enquanto ele beijava meu pescoço.
- Vamos, anda, isso é cena, você não tá nem com raiva de mim, eu sinto isso! - Ele disse, com aquele tom de voz que eu tanto detestava.
- Abra. A. Porta. Agora.
- Dri...
- Agora. - Ele me soltou.
- Então é isso?
- Por que você sempre tem que ser tão clichê? Tem que fazer essa pergunta estúpida de novela? Tem que me segurar no último minuto, correr atrás de mim, essas coisas que você sabe que não funcionam comigo? Eu odeio cada parte de você, Carlos, e digo isso em alto e bom tom! Eu quero ir embora! Você poderia abrir a porra da porta?
- Não. - Ele me segurou pela cintura, sorrindo - Eu adoro esse seu jeito nervoso, quando suas narinas inflam e seus olhos se mexem em total sincronia acompanhando os meus. Adoro quando você diz que me odeia. Chame de mazoquismo, o que for, mas eu amo você. Você não admite, mas sente o mesmo.
- Me poupe, Carlos, tenho mais o que fazer!
- E não é verdade? - Ele beijou meu pescoço.
- Sai de mim - Eu o empurrei pra longe -, você não sabe o que signica - fiz sinal de aspas com as mãos - SAI FORA?
Ele continuou de lá sorrindo, exatamente como no dia em que nos conhecemos. Eu disse que não queria conversar com ele, e ele me olhou assim. Eu deveria saber que homens desse tipo não são nada desistentes.
- Se quiser ir, vá. A porta tá aberta, só a tranca de cima que não.
Eu o olhei com ódio, como se que o que ele estivesse falando fosse mentira e então, ainda com aquele sorriso irritante na boca, ele apontou pra porta logo atrás de mim. Me virei rapidamente e notei: a tranca de cima ainda estava lá, e era só aquilo que me impedia de finalmente dar o fora.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Banheiros e Futebol

Minha primeira vez. A ansiedade emanava dos meus poros. Eu não sabia se olhava para as pessoas na fila ou se soltava a mão do meu pai e corria livre até os portões daquele enorme estádio de futebol. Tudo muito colorido. Aquele lado da fila pertencia ao meu time, que eu torcia ao lado do meu pai desde que me entendia por gente. Dava para notar gerações ali, desde torcedores velhinhos à meninos e meninas menores do que eu. Minha mãe tinha dito que futebol era coisa de gente doida, que perdia tempo sofrendo com nada. Mas, pra mim, aquilo era eu. Como se juntassem vários pedacinhos de mim e espalhassem por ali mesmo, em qualquer lugar.
Os portões se abriram e eu sentia a atmosfera do campo. Dava pra sentir o cheiro da grama sintética, o cheiro da fibra do banco... O jogo era às 16h. Ainda eram 15h. A confusão era grande, lógico, mas com um pouco de paciência conseguimos lugares legais e nos sentamos.
- Ansiosa?
- Um pouco. Pai, posso dar uma volta por aí? Eu realmente não vou aguentar ficar aqui esperando esse tempo todo... - olhei pro relógio. 15h05 ainda.
Ele fez um sinal estranho com a cabeça, que eu tomei a liberdade de aceitar como um sim. Num salto, me levantei e olhei pro resto do estádio. Fui descendo os degraus até o limite e respirei fundo ao encostar minha barriga na grade. Ahhh, que sensação inexplicável! Eu realmente ia ver meus maiores ídolos ao vivo! Nunca me interessei por ballet ou música, como a maioria das minhas amigas. Apesar de feminina, meu negócio era um campo com 11 caras de cada lado e uma bola. Não perdia jogos e ainda fazia parte do time do colégio. Não era a melhor, mas fazia o necessário para um posto de destaque.
Continuei me movendo lentamente, observando cada rosto que passava por mim. Inclusive os vendedores ambulantes, esses faziam questão de bater em mim toda hora!, e nem sequer pediam desculpa... Olhei o relógio mais uma vez: 15h15 agora. O tempo passava mais rápido enquanto eu me afastava, mas ainda era cedo. Dava tempo de passar pelo banheiro feminino.
Como já previsto, lá estava vazio. Dava pra ouvir a agitação lá fora, e ao me olhar no espelho, vi o rosto mais feliz do mundo. Meus cabelos ruivos bagunçados combinavam com a camisa do meu time, e minhas bochechas coradas indicavam o sorriso que insistia em não sair da minha boca.
De repente, uma moça entrou no banheiro. Parecia apressada, incomodada, eu não conseguia decodificar sua expressão. Fiquei olhando, acompanhando sua corridinha até fechar a porta e me deixar à deriva. Dava pra ver seus pés por debaixo da porta, seu tênis surrado e o começo da calça jeans. Lembrei do horário e me assustei quando vi que já eram 15h30. Por que o tempo agora resolvera correr? Virei-me na direção da porta e meu coração veio à boca quando não consegui abri-la. Olhei para a cabine onde a mulher estava e não havia nada ali. Onde estavam seus tênis ferrados? Respirei fundo. Está tudo bem, a porta emperrou. Isso é normal, nada de pânico, pensei. Vou abrir essa porta agora, sair e me sentar ao lado do meu pai, assistir ao jogo feliz e ir para casa. É, é isso que eu vou fazer. Tentei abrir a porta de novo: nada. Aparentemente, estava trancada. Talvez eles tranquem as portas antes do começo do jogo, mas não seria legal checar se ainda havia gente ali?
Com as mãos na cabeça, comecei a andar pelo banheiro. Havia a parte com os espelhos: pias grandes em cada parede lateral, uma de frente para outra. E havia a parte das cabines: um corredor fino, com algumas portas abertas, outras fechadas. Tudo muito verde e branco, exatamente como um banheiro de estádio aparenta ser.
- Ei, tem alguém aqui? - falei, deixando com que minha voz ecoasse. Onde mais estaria aquela mulher?
Ótimo, 15h45. 15 minutos pro meu time entrar em campo e eu perder tudo!, o desespero só aumentava com o tempo. Tentei a porta de novo, nada. Abri todas as cabines, nada. Olhei para o teto na esperança de encontrar algum buraco, nada. Soquei a porta gritando por ajuda, nada. Legal, eu realmente ia perder o jogo. Sentei-me num cantinho, abraçando os joelhos. Não consegui evitar as lágrimas. Passara de pessoa mais feliz do mundo à mais triste em segundos. Na verdade, em meia hora. Enterrei minha cabeça no joelho e fiquei por lá, ouvindo o som da minha respiração. Só eu, a gotinha de água que ficava pingando na pia e mais nada. Ping, ping, ping. Os barulhos estavam aumentando. Ping, ping, ping. E agora a agitação parecia estar mais perto de mim, como antes. Ping, ping, ping. Aquela era a voz do meu pai?
Abri os olhos. Continuava com a cabeça no joelho, mas algo do lado de fora estava completamente diferente. Levantei a cabeça e me deparei com o estádio cheio. Olhei o relógio e eram 15h55. Eu não estava no banheiro? Vi meu pai ao meu lado. Estava com a mesma expressão quando eu o deixei.
- Vamos lá, menina, os jogadores estão entrando no campo... - como que em sintonia, todas as pessoas se levantaram gritando. Com um pouco de dificuldade, me levantei também. Acabei esquecendo do episódio enquanto via o jogo e vibrava com o pessoal.
Na saída, meu pai resolveu esperar a multidão passar para depois irmos com calma. Ficamos sentados um bom tempo, felizes, apreciando aquele fim de jogo com gosto de vitória. Não havia sensação melhor... Descemos as escadas em direção ao corredor de saída e ao passar pelo banheiro, olhando lá para dentro, notei que o tênis surrado da moça ainda estava lá. Só que sozinho. Parado na porta.

domingo, 15 de novembro de 2009

Presente

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Bianca suava. Fazia força para não gritar, a dor era dilacerante. Quando isso ia acabar?, não conseguia parar de pensar nisso. Agora as dores eram mais frequentes e a sua respiração, já fraca, tornava-se cada vez mais difícil. A mulher ao seu lado sussurrava mensagens positivas, mas seu desespero era tão grande que estas se tornavam inintendíveis.
Edu contava os segundos. Impacientemente, segurava um copo de plástico nas mãos, que agora estava completamente amassado. Ele queria segurar a mão dela, mas o médico não permitira sua entrada. Saíra do novo trabalho correndo. Não sabia se gritava de felicidade ou demonstrava sua preocupação com a mulher.
O médico dissera que em 5 minutos tudo acabaria. Duvido!, Bianca pensou. 10 anos tentando e finalmente esse momento havia chegado. Aquele bebê que tanto chutava sua mão através da barriga, ficaria em seu colo, ouviria sua voz e a reconheceria!
- Anda logo com isso! - ela urrou - Eu realmente não aguento mais!
O médico olhou para os enfermeiros e fez um sinal com a cabeça. A enfermeira pediu para que ela fizesse muita força.
- Na próxima - O médico disse, sorrindo.
Bianca fez toda a força que pode e ao fundo, bem ao fundo, ouviu o choro de seu bebê, antes mesmo de apagar.
Por que essas portas demoram tanto para abrir?, Edu estava indignado. Meia hora e NADA? A preocupação refletia em seus olhos cansados. E a imapaciência encontrava-se na sala de espera, ao lado dele.
Antres mesmo que o médico pudesse chamá-lo, Edu correu ao encontro dele e disse, trêmulo:
- E então, doutor?
Aquela gravidez não tinha sido muito complicada. Passaram 9 meses lembrando de como tinham se conhecido, todas as reviravoltas e tudo mais. Agora era a hora de saber:
- É uma menina.

Fim

domingo, 1 de novembro de 2009

Sorvetes e Nostalgia

Para ler a quarta parte, CLIQUE AQUI.

- E aí? - Depois de um longo silêncio, Edu perguntou - a fim de tomar um sorvete?
Ela abriu um enorme sorriso:
- Só se for de menta.
- E sem amantes, - ele se levantou e estendeu a mão para ela - certo?
Ela segurou a mão dele e se levantou, limpando a areia presa na calça jeans que Renan tinha dado para ela.
- Uau - ela olhou Edu de cima à baixo - Você cresceu!
- Eu te disse que isso ia acontecer algum dia!
Bianca sorriu. Havia se esquecido de como era bom e fácil ficar perto dele. Ela não precisava agradá-lo, só tinha que ser ela mesma. Havia se esquecido de que ele a conhecia tão bem quanto ela própria, e por isso, ela não precisava pensar no que conversar, o silêncio falava por eles.
Ao se aproximarem do sorveteiro, Bianca lembrou-se de que precisava acabar logo com isso. Pegou o telefone e pensou em ligar para sua mãe.
- Ele vai voltar.
- Oi? - Bianca o olhou sem entender aonde ele queria chegar.
- Seu noivo.
- Ex.
- Tá, ex-futuro-noivo.
- Não, Edu, você não entendeu... - ela tentou argumentar.
- Eles sempre voltam, não seja precipitada...
- Mas eu não vou voltar, Edu.
Edu sorriu. Não pode deixar de notar que se sentia feliz por isso. Não guardara rancor por todo esse tempo em que ela esteve ausente. Não era egoísta e a queria feliz com quem quer que fosse. Mas seus poros gritavam por ela. Sua chance de fazê-la feliz era agora, e isso também não parava de ecoar na sua cabeça.
- E o que você vai fazer?
- Avisar para minha mãe que não tem mais casamento, enquanto você vai ali e compra nosso sorvete! - ela piscou.
Edu adorava a forma como Bianca controlava a situação. E por mais que ela não concordasse, ele a achava forte. O tempo não a mudara muito, nem a cidade grande. Seus cabelos negros (agora com mechas loiras) ainda o fascinavam. E apesar da grande quantidade de maquiagem (agora borrada), Edu ainda via a mesma Bianca de sempre.
Comprou os dois sorvetes de menta e dirigiu-se ao banco onde ela estava sentada. Sentou-se ao seu lado.
- E a sua mãe?
- Obrigada, - ela disse, pegando o sorvete - Ela ficou chocada, é claro. Não esperava nada disso, como eu.. Mas ela entendeu e disse que vai desmarcar tudo.
- E.. - ele não sabia ao certo como perguntar isso, a vergonha e a timidez sempre o pegavam nessa hora - Quando você.. hm, você volta pra São Paulo?
- Só depois do casamento. Do dia que seria o casamento, né?
O coração de Edu acelerou. Quer dizer, então, que ele teria duas semanas com ela? Não, ele pensou, Ela não está interessada em você. Acabou. Isso já faz cinco anos e..
- Você vai me fazer companhia todos os dias, né? - ela disse, de repente.
... você está parecendo um adolescente estúpido!
- Claro - ele não pensou para responder, quando notou as palavras já tinham saído de sua boca - Você vai é se enjoar de mim!
- Não... - ela sorriu - Vou matar as saudades!
Edu nunca conseguiu entender as mulheres. Agora ela tá dando em cima de mim?, pensou de novo. Não sabia como reagir.
- Aliás - ela disse, interrompendo os pensamentos perdidos de Edu - Você e eu temos que ir ao parque da praia!
- Mas, Bianca, nós somos adultos e..
Ela se virou para ele e o encarou:
- Por que você tem que ser tão sério o tempo todo?
- Não é isso! - ele desviou o olhar - Nós não cabemos mais lá!
- Aposto outro sorvete que cabemos naquele de girar!
- O redondo que me deixa enjoado?
- Exatamente!
- Apostado, então - ele se levantou e foi andando em direção ao parque. Bianca o seguiu.
No caminho até o parque, risadas e bobeiras tomaram conta dos dois. Sentiram-se com 15 anos de novo e desejaram que aqueles pequenos segundos se transformassem em minutos, horas, dias!
- E aqui está a aposta que eu vou vencer! - ele disse
- Quem vai primeiro?
Ele segurou o brinquedo e sorriu:
- Primeiro as damas, é claro.
Com medo de cair, ela subiu e sentou-se no banquinho amarelo enferrujado. "Gelado!", ela disse, rindo. E Edu sentou-se no banquinho também amarelo e enferrujado na frente dela.
Começaram a girar lentamente. Giraram, giraram e giraram. O enjoo passara após a primeira volta e agora Edu só conseguia encarar aqueles olhos castanhos que se apertavam quando ela sorria. Giraram, giraram e giraram. E a chuva caía fria em seus ombros. Giraram, giraram e giraram. O vento bagunçava os cabelos negros dele. Giraram, giraram e giraram. E as duas semanas haviam passado.

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- Promete que vai vir me visitar? - ele pediu.
- Claro! E eu volto mesmo dessa vez, ok?
- Tem certeza que vai ficar bem lá?
- Tenho, Edu! - ela ficou na ponta dos pés para beijar a bochecha dele - Eu tenho que voltar e continuar a vida...
- Tudo bem, tudo bem... Mas você sabe como fico preocupado e tudo mais...
- Deixa de ser bobo! - e rapidamente, mais rápido do que Edu imaginara, Bianca ficou na ponta dos pés novamente e encostou sua boca na dele.
Sem graça, continuou:
- Meu voo já tá indo, a gente se vê!
Edu ficou paralisado, novamente a vendo partir. Aquela cena já era conhecida e pelo visto, não teria um final diferente.
- Bianca!
Ela se virou e deu de cara com Edu arfando e descabelado. Estavam próximos. Edu a segurou pela cintura, e antes mesmo que ela pudesse falar alguma coisa, ele se inclinou e a beijou. Finalmente fez o que mais queria em toda a sua vida. Esperava por esse momento desde que a vira pela primeira vez, entre as novatas perdidas do seu curso de inglês.
- Eu pensei que você não fosse fazer nada...
- E te perder outra vez? Nunca.

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